sexta-feira, 11 de maio de 2018

Olhar profundo

Todo o tempo que tenho passado com o meu avô de santo reconheço nele muito do meu Bàbá.
Ainda tenho algum receio por mostrar o meu eu..
O meu lado brincalhão, o meu lado curioso, o meu lado engraçado...
O meu verdadeiro eu..

Algo que nunca fiz com todos os Bàbás e Iyàs que visitaram o ilê asé.
Sempre tentei parecer algo que não era, um menina bem comportadinha ingênua...
Pela primeira vez mostrei o que o meu Bàbá conhece...
E isso.. ai isso... eu que não sou dada às pessoas, que sou desconfiada quando conheço alguém... deixa-me assustada..

Houve um breve momento...
Em que o meu Bàbá não estava presente e estava com o meu avô de santo no carro..
Foi uns segundos em que conversávamos mas ele olhou-me com um olhar que senti como se entrasse por mim a dentro...
Foi profundo esse olhar.. como se olhasse para além da minha pessoa..

E não consigo desde ontem, tirar esse momento da cabeça..

Porque tantos receios, tanto medo.. Será por eu ser abian e ter medo que diga ao meu Bàbá essa menina não é boa pessoa...
Essa menina não é para aqui...

Pensamentos talvez sem nexo...

Mas... ser abian é um misto de emoções e descobertas a cada segundo dentro do asé.
Ser abian é aprender com os erros, aprender vendo o exemplo do meu Bàbá e seguir direitinho as regras da tradição do candomblé.
Sentar sempre mais baixa que o sacerdote, não olhar diretamente para os seus olhos, pedir bênção aos presentes..

Respeitar todos os presentes, respeitar tudo o que se passa...

Ser humilde, e uma das que tenho mais dificuldade, manter o silêncio..

Ser abian é conhecer a religião, a sua hierarquia e todos os meus deveres como filha da casa...




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