Ser abian é ver se enquadro-me na religião e não se ela se enquadra em mim.
É uma adaptação a novas regras, a novas pessoas, a uma hierarquia, a costumes diferentes, roupas diferentes.
Ser abian é aprender a ser humilde, baixar a cabeça, não responder a mais velhos nem a irmãos, não olhar torto, não bufar de má vontade, não fazer cara feia.
Ser abian é saber que cansa, que não é fácil, que abdicamos de muita coisa, que o candomblé é prioritário, que é preciso comparecer, ajudar, dar ao litro e muita dedicação. Ser abian não é ser de hoje sim amanhã não depois talvez, ser abian é estar presente quando é preciso e quando não é preciso oferecer ajuda.
Ser abian é saber que cansa, que não é fácil, que abdicamos de muita coisa, que o candomblé é prioritário, que é preciso comparecer, ajudar, dar ao litro e muita dedicação. Ser abian não é ser de hoje sim amanhã não depois talvez, ser abian é estar presente quando é preciso e quando não é preciso oferecer ajuda.
Ser abian é zelar pelo ilê, preocupar-se com o seu zelador, com os seus mais velhos, com os seus mais novos.
Ser abian não é fazer fofoca, humilhar, pisar o outro, mas procurar ajudar a todos independentemente de receber de volta.
É ouvi sermão, aprender com os erros, engolir orgulho, não querer ser o centro da atenção, não querer dar ordens, não assumir uma postura de que já sei mais do que o outro.
O que aprendi sobre ser abian é começar de novo. É começar como se estivesse a ir para um novo trabalho, para uma nova escola, para uma nova cidade.
Não chego a um novo lugar e imponho a minha forma de viver, eu aprendo com quem já lá está. Vejo como vivem, as regras impostas, como tudo funciona. E com o passar do tempo, com o envolvimento, com a continuidade da frequência vejo se eu consigo me enquadrar na religião.
O falar constantemente sobre o que sentimos, sobre o que vimos, sobre o que experienciamos, começo a perceber que quando não há a resposta esperada, pode aumentar a nossa insegurança. Então mais vale guardar para mim. Se senti algo mais, se tive uma visão ou uma percepção, não devo procurar saber se o outro acredita em mim, o que o outro sentiu, o que outro pensa...
O velho ditado já diz, cada macaco no seu galho, e procurar saber o que o macaco vê do galho dele não me traz felicidade, mas insegurança, amargura quando não vejo frontalidade, quando começo a pegar ideias do sotão e a misturar tudo.
Ser abian para mim, é errar mas ter capacidade de aprender com os meus erros, ser humilde em reconhece-los, e procurar corrigir.
Ser abian é aprender a deixar uma vida de noites, de má vida, de preguiça, de só faço o que quero, de egocentrismo.
Ser abian é abraçar um novo caminho, uma nova vida, aprender a limpar animais, deixar o nojinho em casa, aprender a limpar o chão quantas vezes for necessário, deixar a preguiça em casa, aprender a baixar a cabeça e não olhar nos olhos dos zeladores, deixar a prepotência e má disposição em casa, aprender a ouvir chamadas de atenção sem responder, andar descalça, sentir as pernas a doer, o corpo a querer descansar depois de tanto limpar, varrer, depenar, lavar loiça enfim...
Ser abian é querer começar a andar descalço num caminho de estrada bem longo, começar os primeiros passos, e não parar. Seguir em frente, com a pisada cada vez mais forte, mais segura.
A algum tempo o meu bàbá ensinou-me, estamos no sagrado pelos orisás e não pelas pessoas, demorei a entender assim, ainda hoje tenho alguns deslizes, mas o sagrado é mais importante.
Uma vez ouvi a frase, que um zelador não precisa dos filhos de santo, mas os filhos de santo precisam do zelador. Fiquei chocada a primeira vez que ouvi. Achei que a relação seria recíproca, que ambos precisavam um do outro. Hoje entendo... Zelador não precisa realmente dos seus filhos para cultuar o sagrado, ele tem o conhecimento, os meios... filhos precisam de um zelador para irem evoluindo na religião e cultuarem o sagrado.. Ainda agora, parece uma relação meia fria vista desta forma... mas é real... Se um filho não tem um zelador, como tomar um bori? Vai saltar de casa em casa para tratar-se espiritualmente? Mas um zelador com clientes mantém a casa, sustenta os seus trabalhos, e cultua o sagrado. Um zelador sozinho tem os seus igbas tem os seus orisás.. só falta o amor dos filhos de santo... o carinho, a dedicação.. é verdade que dão preocupações, muitas vezes chatices, situações menos boas... mas a dedicação, o carinho, a preocupação não será também importante na vida de um zelador?
Eu acredito que sim.... Mas sou apenas uma abian.. a muito pouco tempo na religião e uma sentimental de primeira.. quem sabe um dia não mudo de opinião...

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