terça-feira, 31 de julho de 2018

O que é ser de axé?

Fofocar provoca angústia, mal estar, desentendimentos, tristeza e perca de foco.

Fofocar não é de pessoas de axé.

Ensinar com humildade permite criar um elo forte entre todos, permite a transmissão de conhecimento da ancestralidade, permite a continuação do sagrado ao longo de várias gerações.

Acusar alguém com raiva, querer contar a história a sua maneira para ficar apenas bem vistos não é de axé.

Ser de axé é além de ser humilde ensinar quem erra, ensinar o respeito ao sagrado, não é explodir anos depois de um acontecimento, não é procurar os mais velhos e criar intrigas, nem procurar os mais novos e acusar, apontar o dedo e querer ficar bonitinho na história.

Todos somos falíveis por sermos humanos, poucos temos a capacidade de ter empatia, compreender o próximo, e raros são aqueles que ensinam.

Ser de axé é ter amor, humildade, compreensão, vontade de partilha  ser amigo,  sincero e verdadeiro.

Faltam 3 dias para recolher e aprendi o que acredito ser uma lição valiosa. As palavras levam o vento  as atitudes mudam, a vida evolui, as pessoas são apenas pessoas  e estas nunca devem interferir na ligação que temos com os orixás.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

18 dias

Faltam 18 dias para recolher...

As emoções andam desequilibradas e as pessoas têm dificuldade em entender-me..
Tanto choro como desato a rir. Tanto quero estar com pessoas como quero estar sozinha. Tanto quero falar como quero ficar em silêncio.

O meu coração está ansioso para me iniciar.. parece que falta tanto e ao mesmo tempo tão pouco. Na minha mente surge tantas perguntas, tantos receios.. sou a primeira filha de oxum sendo iniciada.. será que por isso esta complexidade de sentimentos? Esta ansiedade, este nervosismo, esta alteração de humor de comportamento?

Falta algo dentro de mim e ainda não sei o que procuro.. o tempo passa e não passa, não sei o que ando a fazer, não sei nem o que fazer, ler ver filmes passear tudo o que gosto não me preenche.. o sono desapareceu ando sem conseguir dormir, sem conseguir ficar em casa sem conseguir ser eu mesma...


quinta-feira, 12 de julho de 2018

As águas vão correndo

Hoje foi um encerrar de mais um ciclo na minha vida. 

Muitos afirmam que depois de uma iniciação a vida muda, que tudo se transforma e renascemos. Que a partir desse momentos somos novas pessoas. 

A minha mudança começou nos últimos meses. A minha aprendizagem do meu "novo eu", fui encaminhada para tornar-me uma pessoa diferente do passado e pouco a pouco fui seguindo o meu caminho. O caminho que orisá me mostrava, e eu hesitante no início comecei a trilhar, houve obstáculos no caminho, não cedi, fui tornando-me mais forte. Fui guerreira, fui lutadora, segui sempre em frente. 

Levo esta aprendizagem para toda minha vida, de abian e brevemente de iyawo. 

O saber não ficar a espera, o lutar por mim, sem qualquer facilitismo. Tive uma recaída esta semana de querer comprar alguns secos durante as compras com o meu pai, e inventar que seria para ajudar alguém, mas orisá mostrou-me se eu consegui lutar até aqui sozinha para que a pouco tempo de recolher fazer isso. Orisá colocou no meu caminho a possibilidade de comprar muita coisa dividida com uma irmã minha. Isso é uma benção. 

Eu esforcei-me, deixe de ser a menina dondoca e fui a luta para alcançar este objetivo. Estou na reta final. Falta pouco mais de 20 dias, não é agora que devo ceder. "o ser fácil olhando para o céu e dando um jeitinho" ficou no passado, hoje quero conquistar com os meus braços.

Hoje foi o meu último dia de trabalho. Hoje foi um encerrar de ciclo. As condições de trabalho cada vez eram piores, cada vez mais difíceis ao longo destes meses, e eu sempre continuei. Até hoje. 

Então hoje sei, que depois da iniciação, posso ir a luta que vou vencer. Orisa mostrou-me isso. Mostrou a mulher que sou, a guerreira que sou. Muito grata por isso.

Acredito que testes todos temos ao longo da nossa vida, eu tenho sido muito tentada. Era muito fácil não sujeitar-me a trabalhos que não me agradavam, era muito fácil estar encostada sem fazer nada, era muito fácil deixar a preguiça, a falta de vontade falar mais alto. Isso é fácil.


Mas, quando queremos nos iniciar, e orisá quer a nossa feitura, somos postos a prova. Lembro-me a uns meses atrás, a conversar com oxum, oxossi e logunede, quando lhes fui acender uma velinha. Lembro de bater cabeça, pois nada estava correndo como queria, apenas promessas de estágio.. promessas promessas.. e eu a trabalhar a meses sem receber nada.. era top ser professora, era fantástico dar aulas, mas era fácil. Não estava a dar valor nenhum a vida, e não recebia nada. Estava a contemplar uma promessa que teria um estágio remunerado. Chorei a bater a cabeça a cada um desses santos, que não entendia o que se passava. Chorei a pedir orientação, e sem saber de onde eu disse a cada um deles, "se querem que eu prove que quero mesmo me iniciar eu vou provar". Desatei em lágrimas, abri o meu coração a cada um deles, estava tão perdida em sinceras palavras, que não vi o tempo passar. Estava a ekedji a porta dizendo que estavam preocupados pois estava já a muito tempo, a mais de uma hora, e que já tinham começado a jantar, era o aniversário do babaegbe. Não me apercebi do tempo a passar, mas foi importante. Aí foi a minha virada, foi a minha mudança. Em que provei que realmente queria. Estes meses foram de muita transformação positiva. 

Sou abençoada pelos orisas ajudaram-me a ser uma nova pessoa. Tenho ainda milhares de coisas a mudar.. mas ter começado já é maravilhoso.  
Ora ye ye o minha mãe oxum <3 

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Será possível a iniciação ?

Toda a minha vida cometi erros.. todos cometemos...
Eu tenho a particularidade de não levar tudo até ao fim. Fosse escola, fosse relação  fosse compromissos, trabalho.. e por aí vai.

Aprendi com a entrada no candomblé que eu estava errada. Aprendi que não é caminho.

Ficar encostada, não levantar os braços e não fazer pela vida, ver o tempo a passar,só reclamar mas nada fazer para mudar.

Revoltas, discussões, chamadas de razão, querer mostrar o meu ponto de vista a força.. muita falta de atenção, amor, carinho  valorização do que realmente importa e principalmente muita falta de amor próprio.

Mudei em muita coisa, sendo abian, cresci como pessoa, cresci como ser humano, cresci como filha de santo. Ao longo do tempo muito aprendi, muito refleti e consegui evoluir.

Arranjei dois trabalhos, deixei de ficar de preguiça no ile, deixei de reclamar, deixei de fazer milonga. Entreguei-me ao trabalho, entreguei-me a responsabilidade, fé  amor dedicação foram as palavras que coloquei em prática.
Por esta experiência de vida, em que nunca terminei algo que comecei, tenho medo da iniciação por alguma razão não acontecer.

Nos últimos meses tudo mudou. Esforcei-me mesmo.
Menos de 30 dias que faltam... e eu com medo de não conseguir cumprir esse grande objetivo...

Tenho fé nos orisas, tenho fé na minha Òsún, tenho fé no meu Bàbá, mas falta ter fé em mim... tenho muito medo que faltando tão pouco tempo algo der errado.. nem eu sei o que pode dar errado..

Se eu pudesse entrava já amanhã na primeira hora possível... mas as coisas não são assim, são pensadas e com cuidado.


Rezo a que os orisas me abençoem e tudo aconteça como previsto.. e este medo e insegurança em mim própria desapareça de uma vez por todas e eu nasça uma nova mulher...

Asé..

Tempo Passa Tempo

Os dias correm lentos.. demorados... 
A vontade de estar não em casa, não no trabalho, mas em outro lugar cada vez é mais forte.

Onde pertenço? Por onde ando? Para onde vou?

A ansiedade condena um ser humano... as emoções tiram a serenidade, a tranquilidade, a vontade de ter calma... 

Menos de 30... tic tac... o tempo corre.. não para.. e ao mesmo tempo parece tão lento... 

Em conversas sentadas num apoti, em momentos de reflexão em contemplação da natureza, em momentos de pausa do dia, dou por mim perdida nos meus pensamentos.. 

As vezes tão perdida em mim mesma que esqueço do mundo ao meu redor...

A alguns dias no carro da empresa resolvi alienar-me da conversa de todos e ouvir um ponto de xire de odé, tenho insistido nesse e vou conseguir. 
Estava tão concentrada que fechei os olhos e cantava para mim mesma, "omorodé omorodéee". Estava feliz no meu mundo. Sem conversas chatas, sem energias negativas, estava no meu mundo. 

Senti tocarem-me no braço, e a colega disse que o outro colega estava preocupado comigo. Eu perguntei o porque, não estava a entender, estava apenas a ouvir no volume máximo, e tão feliz.
O colega pergunta o que estava a ouvir pois parecia um som psicadélico e como se eu estivesse a entrar em transe. Ah ignorei sorrindo e continuei no meu mundinho.... 

Falta pouco tic tac... 

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Repetição, Repetição, Repetição...

Uma grande dificuldade que tenho tido passa por aprender as orações, orikis, aduras. 

Não entendo porque tudo tem que ser cantado. Pior pessoa para musicalidade? Eu. 

Se fosse falado seria assim tão péssimo? Mas há que respeitar a ancestralidade. 
Infelizmente nunca ouvi música até aos meus 12 anos, a minha mãe na rádio só ouvia ao domingo um senhor que dizia umas palavras e depois ela tinha que beber um copo de água porque ela acreditava estar abençoado. Televisão os programas normais, e se fosse algum cantor lá se ouvia, mas eu nem sabia o que era um pauta, nem ritmo, nem nada disso. Estou em crer, que se tivesse ouvido música em criança o meu ouvido poderia ser melhor... 

Péssima péssima,  não sei cantar, perco o ritmo, mudo a melodia... Enfim sou uma compositora nata. Pena não conseguir cantar duas vezes igual.

Então ensinam-me, ouve, ouve, ouve, repete, repete, repete, ouve, ouve, ouve, repete, repete, repete...

Não tenhas pressa, há pessoas que estão na religião a 15 anos, a 10 anos, e apanham mais rápido. 

Confesso que a minha aprendizagem é não ficar frustrada, não desistir, e insistir. Tenho que acreditar que vou conseguir, o yoruba não é difícil, não é essa a minha dificuldade. A dificuldade é a não musicalidade. 

Então pensei, dedicar umas horas de estudo, em um dia por semana, não é suficiente. 
Preciso ouvir diariamente mais vezes as gravações que gentilmente o meu bàbá fez para eu ir treinando. 

Repetição, Repetição, Repetição e.. dedicação...


quarta-feira, 4 de julho de 2018

Os meus 21 dias

Estou marcada para recolher em breve. Iniciação em breve... Ando numa montanha-russa de emoções, e vale muito ter um zelador como eu tenho hoje. 

Como não tenho a menor ideia de como é, apenas posso imaginar, que seja muito lindo desde que haja uma entrega de coração.

Acho importante, uma entrega de todos, paz amor carinho dedicação trabalho tudo isso está bem presente nesses dias. 

Serão 21 dias que estarei recolhida, e só consigo pensar neste momento, que maravilha deverá ser estar 21 dias em paz no ilê. Eu sou muito conversadora, mas as vezes, sinto falta do silêncio. Do sossego, da paz. 
E sobre isso penso que é tão bom eu não ter ideia do que irá se passar nesses 21 dias. É tão bom hoje depois de muitas situações, ter aprendido, que o inesperado, o não estarmos a contar, permite que haja uma entrega verdadeira e única ao acto em si. 
Eu acredito que saber tudo antes perde o encanto. 

Eu sou a favor da descoberta, e demorei a aprender isso. Demorei a entender o que é confiança em que cuida do nosso ori, demorei a entender o que era confiança em não procurar mãe google ou pai youtube ou restantes familiares. Demorei ainda a aprender que tudo tem um tempo de ser, de ser ensinado. 
Não é quando eu quero, quando eu pergunto, quando eu penso, mas sim quando for a altura certa. Para o ser humano e no tempo tecnológico atual, mais difícil poderá ser compreender que a curiosidade só pode confundir a mente. Nada contra o acesso de informação, mas ele existe no ilê de cada um. Eu sei que sou privilegiada em ter um bàbá que está sempre disposto a ouvir-me, a partilhar ideias, aconselhar. Sei que existem muitos irmãos e irmãs que não têm zeladores assim. Mas eu não consigo ver o candomblé de outra forma. A minha visão de candomblé é esta. Amor, carinho, compreensão, transparência, orientação, respeito. E hoje consigo a ver desta forma. Amadureci espiritualmente e como pessoa, nos últimos meses. E tudo começou no mês de Junho de 2017, quando estaria para ser o ano da minha iniciação. 
Mas acabou por haver uma saída sim.. apenas não a esperada..
                    

terça-feira, 3 de julho de 2018

Fui apanhada dormindo!!!!

Estava eu fazendo as minhas tarefas no ilê com a ajuda de uma irmã de santo minha. Limpamos paredes, limpamos chãos, janelas, vidros, o salão, esfregamos as calhas, tudo o que devia ser limpo.

Foi bem cansativo e a hora já era tardia. Estávamos as duas sozinhas e no final, quando tudo estava terminado, sentamos no chão a espera de novas ordens do nosso bàbá. 

O tempo foi passando e continuamos a espera que o bàbá quando pudesse viesse ter conosco. Não sei quanto tempo demorou, mas adormeci. Aliás, não adormeci, fiquei mesmo ferrada no sono. Um sono pesado que apanhou-me de jeito. 

Não sei quanto tempo estive a dormir, sei que comecei a ouvir um barulho longíquo. Depois entendi que era alguém a tossir. Quando abri os olhos eu estava deitada no chão com o meu bàbá sentando na sua cadeira olhando para mim, a ekedji olhando para mim, o bàbáegbe olhando para mim e a minha irmã que dividiu as tarefas olhando para mim rindo. 

Fiquei tão envergonhada, ajeitei-me, voltei a posição de sentada, e o meu bàbá ainda perguntou se ele tinha demorado tanto tempo assim, eu respondi logo que não. 


Que vergonha, e eu estou sem entender até hoje, o porque da minha irmã mais velha não me ter acordado e não ter evitado eu passar esta vergonha enorme.....


Descobrindo Ogum...

Eu acredito que ser abian é ser inocente. Temos tantas coisas por descobrir. 
Uma vez, estava a ajudar no ilê, e ao passar a caminho da cozinha para ajudar a limpar a loiça, cruzei-me com o bàbá E. Ele andava de forma estranha de um lado para o outro, com as calças arregaçadas para cima, de olhos fechados, e com passos pesados e estranhos. Eu ainda disse benção, boa noite, mas não tive resposta.

Pensei de imediato, ele deve estar chateado com alguma coisa. Estava de visita aqui em Portugal, e bem, só o conhecia a poucos dias. 
Bem continuei o meu caminho e fui ajudar na loiça. 

Até que volta e meia eu espreitava e esse bàbá continuava igual, a andar de um lado para o outro, e eu sem entender nada e sozinha cuidando da loiça.

Chegou uma irmã iniciada chorando, pensei logo, houve alguma situação que não correu bem na função, houve alguma chamada de atenção, qualquer coisa assim. Só perguntei se estava tudo bem, e ela respondeu que sim, que era emoção. Ainda mais baralhada fiquei, mas tudo bem. 


Aí do nada ouvi uma espécie de assobio de pássaro ou coruja, e quando olhei para a porta estava o bàbá E. de olhos fechados e a entregar uma bacia. Que coisa estranha, agradeci ao bàbá E. e peguei a bacia para lavar. 

E eu cismada, o que terá acontecido. Até que chega a ekedji e comenta que foi lindo ver Ogum. Alto, o meu tico e teco começaram a funcionar, e perguntei como assim ver Ogum, e ela explicou-me que durante a função tinha descido Ogum e se eu não tinha visto o bàbá E. no salão. 

Ok, fazia sentido, então afinal quem eu tinha visto no salão, quem tinha vindo até a porta da cozinha, quem emitia sons, quem andava diferente, era o Orisá e não o bàbá E. 

Eu não estive presente na função, eu não vi o Orisá chegar, quando fui autorizada a descer já tudo tinha terminado, nunca tinha visto Ogum, passei pelo bàbá E que era sempre tão carinhoso e achei estranho nem um olá,  mas nunca me passou pela cabeça que seria o orisá. Porque? Por estar a descobrir, a caminhar ainda na religião. 


Tudo é uma descoberta linda e única...

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Ser abian é....

Ser abian é ver se enquadro-me na religião e não se ela se enquadra em mim. 

É uma adaptação a novas regras, a novas pessoas, a uma hierarquia, a costumes diferentes, roupas diferentes. 

Ser abian é aprender a ser humilde, baixar a cabeça, não responder a mais velhos nem a irmãos, não olhar torto, não bufar de má vontade, não fazer cara feia.

Ser abian é saber que cansa, que não é fácil, que abdicamos de muita coisa, que o candomblé é prioritário, que é preciso comparecer, ajudar, dar ao litro e muita dedicação. Ser abian não é ser de hoje sim amanhã não depois talvez, ser abian é estar presente quando é preciso e quando não é preciso oferecer ajuda. 

Ser abian é zelar pelo ilê, preocupar-se com o seu zelador, com os seus mais velhos, com os seus mais novos. 

Ser abian não é fazer fofoca, humilhar, pisar o outro, mas procurar ajudar a todos independentemente de receber de volta. 

É ouvi sermão, aprender com os erros, engolir orgulho, não querer ser o centro da atenção, não querer dar ordens, não assumir uma postura de que já sei mais do que o outro. 

O que aprendi sobre ser abian é começar de novo. É começar como se estivesse a ir para um novo trabalho, para uma nova escola, para uma nova cidade. 
Não chego a um novo lugar e imponho a minha forma de viver, eu aprendo com quem já lá está. Vejo como vivem, as regras impostas, como tudo funciona. E com o passar do tempo, com o envolvimento, com a continuidade da frequência vejo se eu consigo me enquadrar na religião.

O falar constantemente sobre o que sentimos, sobre o que vimos, sobre o que experienciamos, começo a perceber que quando não há a resposta esperada, pode aumentar a nossa insegurança. Então mais vale guardar para mim. Se senti algo mais, se tive uma visão ou uma percepção, não devo procurar saber se o outro acredita em mim, o que o outro sentiu, o que outro pensa...

O velho ditado já diz, cada macaco no seu galho, e procurar saber o que o macaco vê do galho dele não me traz felicidade, mas insegurança, amargura quando não vejo frontalidade, quando começo a pegar ideias do sotão e a misturar tudo. 

Ser abian para mim, é errar mas ter capacidade de aprender com os meus erros, ser humilde em reconhece-los, e procurar corrigir. 

Ser abian é aprender a deixar uma vida de noites, de má vida, de preguiça, de só faço o que quero, de egocentrismo.

Ser abian é abraçar um novo caminho, uma nova vida, aprender a limpar animais, deixar o nojinho em casa, aprender a limpar o chão quantas vezes for necessário, deixar a preguiça em casa, aprender a baixar a cabeça e não olhar nos olhos dos zeladores, deixar a prepotência e má disposição em casa, aprender a ouvir chamadas de atenção sem responder, andar descalça, sentir as pernas a doer, o corpo a querer descansar depois de tanto limpar, varrer, depenar, lavar loiça enfim... 
Ser abian é querer começar a andar descalço num caminho de estrada bem longo, começar os primeiros passos, e não parar. Seguir em frente, com a pisada cada vez mais forte, mais segura.

A algum tempo o meu bàbá ensinou-me, estamos no sagrado pelos orisás e não pelas pessoas, demorei a entender assim, ainda hoje tenho alguns deslizes, mas o sagrado é mais importante.

Uma vez ouvi a frase, que um zelador não precisa dos filhos de santo, mas os filhos de santo precisam do zelador. Fiquei chocada a primeira vez que ouvi. Achei que a relação seria recíproca, que ambos precisavam um do outro. Hoje entendo... Zelador não precisa realmente dos seus filhos para cultuar o sagrado, ele tem o conhecimento, os meios... filhos precisam de um zelador para irem evoluindo na religião e cultuarem o sagrado.. Ainda agora, parece uma relação meia fria vista desta forma... mas é real... Se um filho não tem um zelador, como tomar um bori? Vai saltar de casa em casa para tratar-se espiritualmente? Mas um zelador com clientes mantém a casa, sustenta os seus trabalhos, e cultua o sagrado. Um zelador sozinho tem os seus igbas tem os seus orisás.. só falta o amor dos filhos de santo... o carinho, a dedicação.. é verdade que dão preocupações, muitas vezes chatices, situações menos boas... mas a dedicação, o carinho, a preocupação não será também importante na vida de um zelador?
Eu acredito que sim.... Mas sou apenas uma abian.. a muito pouco tempo na religião e uma sentimental de primeira.. quem sabe um dia não mudo de opinião...



domingo, 1 de julho de 2018

Necessidade de mudar urgentemente

É difícil para mim não comentar ou não conversar sobre algo que se passa e que eu fiquei encantada, e que gostaria de partilhar ideias.

Acho que ainda como abian, devo aprender, que nem tudo o que se vive no candomblé é necessário comentar, debater, trocar ideias.

Eu sou daquelas pessoas que sentem necessidade extrema, e quando digo extrema, não é exagero, de conversar. Não é apenas deitar conversa fora, é mesmo um contacto humano e de conversar. 

Se eu vir uma flor a desabrochar no meu ilê, tenho que partilhar como ela se abriu, as cores que tinha, o cheiro que senti, como era a terra onde a sua raiz crescia, como estava o céu, como estava o tempo e por aí vai... Sou demasiado descritiva, e ainda se estiver outra pessoa comigo, quero saber se ela viu exatamente como eu vi, se sentiu como eu senti, e fico tão frustrada quando nada oiço... quando do outro lado há silêncio.. Por norma não insisto, mas fico a sofrer por dentro...


Óbvio que este é um mero exemplo, mas é para o caro leitor entender, a minha personalidade. A minha forma de ser. 

Acredito que esteja relacionado com a minha história de vida, em que poucas vezes tive voz, em que muitas deixei me abafar, e daí tantas inseguranças, tantos receios, tantos mimimis...



Na minha vida conversar, faço-o com o meu filho, com os meus cães... E atualmente sinto falta de conversar com mais alguém... só de escrever esta frase, as lágrimas aparecem-me nos olhos.. 

Ando a sentir-me só e não estou só, mas sinto-me só..  Sentimentos bipolares uma vez mais... 

Olho neste momento pela vidro da janela do meu quarto, a chuva cai.. o verão também anda bipolar como eu... quase 4 da manhã e eu com este aperto no coração sem qualquer sentido, com esta lágrima salgada que insiste em cair, e a sentir-me só quando não estou só...

Será possível... 

Tenho que aprender a guardar as coisas para mim apenas.. e confiar no sagrado, confiar no que virá a seguir, confiar no que é destinado e confiar que tudo irá correr bem....





Carta para oxum

Olá mãezinha oxum. Sabe mãezinha, amo muito a senhora e ainda não estivemos juntas. O meu caminho teve altos e baixos, momentos bem ...