Eu acredito que ser abian é ser inocente. Temos tantas coisas por descobrir.
Uma vez, estava a ajudar no ilê, e ao passar a caminho da cozinha para ajudar a limpar a loiça, cruzei-me com o bàbá E. Ele andava de forma estranha de um lado para o outro, com as calças arregaçadas para cima, de olhos fechados, e com passos pesados e estranhos. Eu ainda disse benção, boa noite, mas não tive resposta.
Pensei de imediato, ele deve estar chateado com alguma coisa. Estava de visita aqui em Portugal, e bem, só o conhecia a poucos dias.
Bem continuei o meu caminho e fui ajudar na loiça.
Até que volta e meia eu espreitava e esse bàbá continuava igual, a andar de um lado para o outro, e eu sem entender nada e sozinha cuidando da loiça.
Chegou uma irmã iniciada chorando, pensei logo, houve alguma situação que não correu bem na função, houve alguma chamada de atenção, qualquer coisa assim. Só perguntei se estava tudo bem, e ela respondeu que sim, que era emoção. Ainda mais baralhada fiquei, mas tudo bem.
Aí do nada ouvi uma espécie de assobio de pássaro ou coruja, e quando olhei para a porta estava o bàbá E. de olhos fechados e a entregar uma bacia. Que coisa estranha, agradeci ao bàbá E. e peguei a bacia para lavar.
E eu cismada, o que terá acontecido. Até que chega a ekedji e comenta que foi lindo ver Ogum. Alto, o meu tico e teco começaram a funcionar, e perguntei como assim ver Ogum, e ela explicou-me que durante a função tinha descido Ogum e se eu não tinha visto o bàbá E. no salão.
Ok, fazia sentido, então afinal quem eu tinha visto no salão, quem tinha vindo até a porta da cozinha, quem emitia sons, quem andava diferente, era o Orisá e não o bàbá E.
Eu não estive presente na função, eu não vi o Orisá chegar, quando fui autorizada a descer já tudo tinha terminado, nunca tinha visto Ogum, passei pelo bàbá E que era sempre tão carinhoso e achei estranho nem um olá, mas nunca me passou pela cabeça que seria o orisá. Porque? Por estar a descobrir, a caminhar ainda na religião.
Tudo é uma descoberta linda e única...
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